Arthur Schopenhauer, o renomado filósofo do século XIX, postulou que a vida é uma manifestação da vontade de viver, onde os seres humanos são impulsionados por desejos, especialmente aqueles mais obscuros e indeterminados. Essa visão profundamente pessimista da existência humana encontra eco no filme “Chronicle”, dirigido por Josh Trank, que oferece uma narrativa envolvente sobre os perigos da vontade desenfreada e da busca incessante por poder.
A história gira em torno de Andrew Detmer, um jovem tímido e repleto de sonhos inalcançáveis, cuja vida é transformada após um encontro fortuito com o acaso. Sob a influência de eventos extraordinários, Andrew e seus amigos adquirem superpoderes, desencadeando uma série de acontecimentos que os levam por um caminho sombrio e perigoso.
A jornada de Andrew é um reflexo vívido das ideias de Schopenhauer sobre a insaciabilidade dos desejos humanos. Assim como o filósofo alemão argumentava, Andrew é incapaz de satisfazer plenamente suas vontades, o que o leva a uma espiral descendente de destruição e desespero. Seus desejos, inicialmente latentes e reprimidos, emergem de forma avassaladora, levando-o a explorar seus poderes de maneira imprudente e egoísta.
O filme, habilmente escrito por Max Landis em colaboração com Trank, não apenas oferece uma narrativa emocionante repleta de sequências de ação empolgantes, mas também aborda questões filosóficas profundas. A relação entre os personagens principais reflete os conceitos de Schopenhauer sobre a influência do ambiente e das relações interpessoais na determinação do destino humano.
A presença do filósofo alemão na trama, mencionado em uma conversa entre os personagens, serve como um lembrete constante das complexidades da condição humana. Enquanto Andrew representa a personificação da vontade de viver descontrolada, seu primo Matt atua como um contraponto, buscando manter-se motivado e positivo mesmo diante das adversidades.
No entanto, o filme não oferece redenção fácil para seus personagens. Em vez disso, ele explora as consequências devastadoras da busca implacável pelo poder e pela satisfação pessoal. As cenas de ação espetaculares, que mostram os personagens manipulando objetos com a mente, servem como metáforas poderosas para a futilidade da busca por poder e controle sobre o mundo ao nosso redor.
Em última análise, “Chronicle” é uma meditação sombria sobre a natureza humana e a futilidade das tentativas de domar a vontade de viver. Assim como Schopenhauer previu, a vida é uma jornada marcada pela insatisfação constante e pela luta incessante contra os nossos próprios desejos. E, como Andrew descobre da maneira mais dolorosa possível, essa luta pode levar à ruína e à desolação.